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MEIO AMBIENTE

Geóloga explica como a bacia do Rio Timbó influencia o comportamento do Rio Iguaçu

A presidente do Comitê Timbó, Jamile Sekula, detalhou fatores naturais e urbanos que influenciam a dinâmica das águas na região.

Publicado em 04/05/2026 às 20:18
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À esquerda, vista aérea de União da Vitória e Porto União; à direita, a engenheira geóloga Jamile Sekula. (Foto: Arquivo pessoal/divulgação )

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A dinâmica das enchentes em União da Vitória e Porto União também está diretamente ligada ao comportamento da bacia do Rio Timbó e à forma como o território foi ocupado ao longo do tempo. A avaliação é da engenheira geóloga e presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Timbó e Bacias Contíguas, Jamile Sekula, que detalhou, em entrevista à rádio Educadora Uniguaçu, os fatores que influenciam cheias e deslizamentos na região.

Segundo Sekula, o comitê atua como instância de gestão participativa dos recursos hídricos, reunindo poder público, usuários de água e sociedade civil. “A gente vai cuidar da bacia dos municípios que abrangem o Rio Timbó, que é o nosso principal recurso hídrico aqui na região”, afirmou. O grupo discute desde a captação e qualidade da água até o lançamento de efluentes e o uso de aquíferos.

Bacia amplia impacto das chuvas

A especialista explica que o comportamento das águas nas cidades gêmeas depende de toda a área drenada pela bacia hidrográfica. O Rio Timbó possui aproximadamente 129 km a 150 km de extensão, correndo no sentido sudeste-noroeste até desaguar no Rio Iguaçu. A bacia hidrográfica abrange 11 municípios: Bela Vista do Toldo, Irineópolis, Matos Costa, Porto União e Timbó Grande, Caçador, Calmon, Canoinhas, Lebon Régis, Major Vieira e Santa Cecília.


“Toda gota de chuva que cai nesses municípios vai chegar de alguma forma até o rio e essa água vai chegar para nós”, disse. Deságua no Rio Iguaçu, servindo de divisa natural entre os municípios de Porto União e Irineópolis, ponto considerado crítico para enchentes.

De acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a gestão por bacias hidrográficas é o modelo adotado no país desde a Política Nacional de Recursos Hídricos, pois permite integrar diferentes municípios que compartilham o mesmo sistema de drenagem.

Sekula ressalta que esse efeito acumulado explica por que o nível do rio pode continuar subindo mesmo após a chuva cessar localmente. “Leva ainda cinco dias e o rio continua subindo, porque todas essas bacias vão chegar aqui em algum momento”, afirmou.


El Niño e eventos extremos

A possibilidade de aumento das chuvas nos próximos meses preocupa especialistas. Segundo a geóloga Jamile Sekula, há indicativos de fortalecimento do El Niño, fenômeno que historicamente eleva os volumes de precipitação no Sul do Brasil.

“Pode ser que chova mais, como é previsto normalmente em épocas de El Niño”, afirmou.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o fenômeno altera a circulação atmosférica e aumenta a frequência de episódios de chuva intensa na região, enquanto provoca estiagem em outras áreas do país.

Na prática, segundo Sekula, o risco não está apenas em eventos isolados, mas na sequência de dias chuvosos. “Se chove todos os dias, o solo fica encharcado e essa água não consegue mais infiltrar”, explicou.

Esse acúmulo progressivo de água reduz a capacidade de absorção do solo e intensifica o escoamento superficial, elevando o nível dos rios e aumentando o risco tanto de enchentes quanto de deslizamentos nas cidades gêmeas.

Chuvas recentes mostram variação rápida do rio

A oscilação recente do nível do Rio Iguaçu ilustra na prática o comportamento descrito pela especialista. Após semanas de estiagem, com níveis considerados baixos, as chuvas registradas nos últimos dias elevaram rapidamente o volume do rio na região.

Dados locais indicam que, com precipitações próximas de 80 milímetros em curto período, o nível subiu mais de um metro em poucos dias, revertendo o cenário de seca,  de 1,40 metros para 2,42 metros em uma semana. 

O movimento reforça o alerta para a influência direta das chuvas acumuladas na bacia. Mesmo após períodos de estiagem, a rápida elevação do nível do rio pode ocorrer quando há precipitações intensas ou persistentes em diferentes pontos da bacia hidrográfica.

Ocupação urbana agrava riscos

A geologia local também contribui para a vulnerabilidade. As cidades estão situadas em área de planície de inundação do Rio Iguaçu, naturalmente sujeita a transbordamentos. “Quando chove demais o rio vai sair da calha e vai atingir as cotas”, afirmou.

A ocupação urbana intensifica esse processo. A perda de áreas de preservação permanente (APPs), a impermeabilização do solo e falhas na drenagem urbana dificultam o escoamento da água. “A água não tem mais como escoar, e vai ser o meio que causa as enchentes”, disse.

O Serviço Geológico do Brasil aponta, em levantamentos de áreas de risco, que ocupações em encostas e margens de rios estão entre os principais fatores de agravamento de desastres naturais no país.

As APPs tem com a função de proteger recursos hídricos, solo e biodiversidade. Instituídas pelo Código Florestal (Lei 12.651/2012), abrangem margens de rios, topos de morro e encostas. Intervenções são proibidas, salvo casos de utilidade pública ou interesse social.


Deslizamentos e sinais de alerta

Além das cheias, há risco de deslizamentos, especialmente em áreas de morro ocupadas. Sekula explica que o excesso de água reduz a coesão do solo, favorecendo rupturas. “Quando o solo perde essa coesão, ele vai deslizar”, afirmou.

Entre os sinais de alerta estão trincas no solo e em construções, árvores inclinadas e fluxo intenso de água sem drenagem adequada. A retirada de vegetação nativa também contribui. “As raízes têm papel importante em preservar esse solo”, disse.

Ela defende a ampliação do mapeamento de áreas de risco na região, prática já adotada em cidades com relevo mais acidentado, como Caçador e Joaçaba.

Educação ambiental e prevenção

Para a presidente do comitê, a redução de riscos passa por educação ambiental e planejamento urbano. “Não jogar lixo, preservar APPs e cobrar sistemas de drenagem eficientes”, listou.

Embora o comitê não atue diretamente em ações emergenciais, ele fornece dados e orientações técnicas aos municípios. “A gente faz a gestão de como essa água vai ser usada e se coloca à disposição para estudos e apoio”, afirmou.

Sekula orienta a população a acompanhar previsões em canais oficiais e alertas da Defesa Civil do Brasil. “Fiquem atentos à previsão e acompanhem a Defesa Civil dos municípios”, recomendou.

Cobertura contínua

A discussão sobre o aumento do risco de cheias na região também vem sendo acompanhada por outras frentes. Em entrevista recente ao Portal da Cidade, o meteorologista Ronaldo Coutinho apontou sinais de mudança no padrão climático e reforçou a possibilidade de eventos mais intensos, especialmente com a atuação de fenômenos como o El Niño.

Já a Defesa Civil de União da Vitória destacou ações de prevenção e resposta, incluindo monitoramento constante do nível do rio e orientação à população em áreas de risco.

As duas entrevistas completas estão disponíveis no Portal da Cidade e complementam o cenário apresentado por especialistas sobre os desafios enfrentados pelas cidades gêmeas.

Fonte: Portal da Cidade União da Vitória

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