Papo de Especialista
Isolamento, cansaço e perda de interesse: quando é hora de pedir ajuda?
Psicóloga Marina Kreling explica como identificar mudanças no comportamento, acolher quem sofre e buscar ajuda antes que o quadro se agrave.
Publicado em 21/09/2026 às 13:45
Não é preciso esperar que o sofrimento emocional chegue ao limite para procurar ajuda. Alterações no sono e no apetite, irritabilidade, isolamento, perda de interesse por atividades que antes davam prazer, dificuldade de concentração e cansaço persistente estão entre os sinais que merecem atenção. O alerta é da psicóloga clínica Marina Kreling, que chama a atenção para a importância de reconhecer mudanças de comportamento e buscar apoio antes que o quadro se agrave.
A orientação ganha destaque durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio e valorização da vida. Para Marina, a principal diferença entre emoções comuns do cotidiano e um sofrimento que exige maior atenção está na frequência, intensidade e duração dos sintomas.
“Não é a emoção em si que é o problema. É a frequência com que isso vem aparecendo na vida de cada pessoa”, explica a psicóloga.
Tristeza, estresse e ansiedade fazem parte da experiência humana. A tristeza pode surgir diante de uma perda ou frustração; o estresse costuma aparecer quando as demandas são percebidas como maiores do que a capacidade de lidar com elas; e a ansiedade pode ocorrer diante de situações de incerteza ou que exigem sair da zona de conforto.
O sinal de alerta aparece quando essas emoções começam a interferir na rotina. De acordo com Marina, deixar de sair por medo, não conseguir dormir por causa de preocupações, perder o interesse pelas atividades habituais ou apresentar dificuldades para realizar tarefas do cotidiano são situações que justificam a busca por ajuda profissional.

Não é preciso esperar o limite
Segundo a psicóloga, procurar atendimento não deve ser encarado como uma medida apenas para momentos de crise.
“Não precisa esperar chegar no limite para procurar ajuda”, afirma.
A recomendação é buscar auxílio quando o sofrimento já está afetando a vida cotidiana, quando determinados problemas passam a se repetir ou quando a pessoa percebe que não consegue mais lidar sozinha com as próprias emoções.
O objetivo é interromper a evolução do sofrimento e permitir que a pessoa receba acompanhamento adequado. A rede pública de saúde também oferece portas de entrada para esse atendimento, por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS), dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e de outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial.
Como perceber quando alguém próximo precisa de ajuda
Nem sempre uma pessoa em sofrimento vai pedir ajuda diretamente. Por isso, familiares e amigos podem desempenhar um papel importante na identificação de mudanças de comportamento.
Marina recomenda uma abordagem simples: perguntar como a pessoa está, ouvir sem julgamento, demonstrar disponibilidade e oferecer companhia. Não é necessário encontrar uma frase perfeita ou ter respostas para todos os problemas.
“Às vezes, o importante é só acolher aquela pessoa”, afirma.
Também pode ser necessário ajudar a pessoa a encontrar atendimento profissional. Para quem enfrenta sofrimento intenso, tomar a iniciativa de procurar ajuda pode ser difícil, e o apoio de alguém próximo pode facilitar esse primeiro passo.
Atenção aos sinais de risco
Quando há suspeita de que uma pessoa esteja enfrentando uma crise ou pensando em tirar a própria vida, mudanças importantes de comportamento não devem ser ignoradas.
Entre os sinais que merecem atenção estão falas relacionadas à falta de esperança, à sensação de ser um peso para outras pessoas ou à percepção de que não existe saída. Isolamento repentino, despedidas incomuns e mudanças bruscas de comportamento também podem indicar que a pessoa precisa de ajuda.
A psicóloga destaca ainda que uma mudança aparentemente positiva no comportamento não deve, sozinha, ser interpretada como sinal de que o problema desapareceu. Pessoas que já passaram por uma tentativa ou apresentam sofrimento intenso precisam continuar sendo acompanhadas e observadas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que, para cada morte por suicídio, existem muitas outras pessoas que tentam tirar a própria vida. A organização estima mais de 20 tentativas para cada morte, embora essa relação varie de acordo com país, região, idade, sexo e outros fatores.
Mais de 720 mil mortes por ano no mundo
Dados da OMS mostram a dimensão do problema. A organização estima que 727 mil pessoas morreram por suicídio em 2021. No mesmo ano, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos no mundo.
A OMS ressalta que o suicídio é um fenômeno complexo, influenciado por fatores sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais. Entre os fatores associados ao risco estão experiências de perda, solidão, conflitos, problemas financeiros, violência, abuso, doenças e histórico de tentativa anterior.
Por isso, a prevenção não depende de uma única ação. O acesso a suporte emocional e a serviços de saúde, a identificação precoce do sofrimento e a redução do estigma são considerados elementos importantes para a prevenção.
Onde buscar ajuda
Em situações de sofrimento emocional, a orientação é procurar uma Unidade Básica de Saúde, um CAPS ou outro serviço de saúde. Em situações de urgência, o Ministério da Saúde orienta procurar uma UPA 24 horas, pronto-socorro ou hospital, além de acionar o SAMU pelo número 192.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito pelo número 188, 24 horas por dia. O serviço funciona em parceria com o SUS e também disponibiliza atendimento por outros canais.
Para Marina Kreling, cuidar da saúde mental não significa estar bem o tempo inteiro. As emoções fazem parte da vida, mas é importante reconhecer quando determinada situação se torna pesada demais e começa a impedir a pessoa de viver sua rotina.
“Saúde mental não significa estar bem o tempo todo. A gente vai ter as emoções. Mas é cuidar da saúde mental, reconhecer quando alguma coisa ficou pesada demais”, resume a psicóloga.

Marina Kreling, psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atendimento presencial em Porto União e online. Por uma vida com mais leveza.
Fonte: Portal da Cidade União da Vitória
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