SAÚDE
Laudo aponta broncopneumonia como causa da morte de bebê de dez meses na região
Documento afasta hipótese inicialmente levantada pela família, enquanto mãe questiona atendimento recebido antes da morte.
Publicado em
13/08/2026 às 13:20
Atualizado em
Está descartada a hipótese de a morte de José Alfredo de Campos, de apenas 10 meses de idade, ter sido causada pelo soro antiofídico recebido assim que ele nasceu no Hospital Santa Cruz de Canoinhas. Ao invés de receber a vacina contra a hepatite B, por erro do HSCC, ele recebeu o soro. José Alfredo, assim como os outros 10 recém-nascidos que receberam o mesmo soro foram monitorados por cerca de três meses, sem nenhuma intercorrência em nenhum dos casos. Contudo, a morte de José Alfredo em junho deste ano levantou suspeitas sobre a causa.
Inicialmente, os pais foram informados de que o bebê teria morrido em decorrência de bronquiolite, mas não havia um laudo oficial. Nesta semana, o Serviço de Verificação de Óbitos de Joinville emitiu laudo afirmando que a causa da morte foi broncopneumonia, o que teria provocado insuficiência respiratória aguda.
Para Leia, mãe do menino, “esse documento ajuda a esclarecer parte do que aconteceu, mas ainda existem muitas dúvidas sobre o atendimento que ele recebeu.” Ela suspeita de que houve negligência por parte do posto de saúde de Major Vieira, onde a família mora.
Em junho, ela e o marido conversaram com o JMais. Segundo a mãe, José Alfredo enfrentava problemas de saúde recorrentes desde o nascimento. “Ele não era uma criança normal. A imunidade nunca foi boa. Ele vivia doente, sempre com gripe, sempre tomando antibiótico”, relata.
Leila afirma que, ao longo dos meses, procurou diversas vezes atendimento médico para o filho e chegou a pedir exames mais aprofundados, mas que os profissionais avaliavam os sintomas como quadros gripais comuns.
Nos dez meses de vida de João Alfredo, o posto de saúde de Major Vieira passou a ofertar atendimento em pediatria somente nos últimos meses. Leila conta que levou o filho duas vezes para consultar com a pediatra. Na segunda vez, depois de os sintomas da suposta gripe persistirem é que a médica disse a mãe para marcar uma terceira consulta na qual então seria solicitada uma bateria completa de exames para ver o que poderia estar por trás de tantas gripes consecutivas.
A família também relata que o bebê sofreu uma queda um mês antes, quando teria trincado um osso do crânio. Na ocasião, ele foi transferido para Joinville de helicóptero a partir de Mafra, mas recebeu alta sem maiores complicações.
QUADRO AGRAVADO
De acordo com a mãe, os sintomas que culminaram na morte começaram no dia 31 de maio, quando José Alfredo apresentou febre. Ele já utilizava antibiótico há pelo menos uma semana para tratar uma rouquidão.
No dia seguinte, segundo o relato, o bebê acordou abatido, sem apetite, com febre alta e dificuldade para respirar. À noite, foi levado ao Hospital São Lucas, em Major Vieira. Leila afirma que, inicialmente, o quadro foi tratado como uma gripe. “Ele levantou desanimado, sendo que ele era bem agitado. Acordou reinando, não queria comer, queria só colo. Percebi que ele estava com febre, não quis almoçar, caidinho, sufocado e gemendo. À noite levei ele para o plantão com muita febre. Priorizam ele. A médica da UPA de Major Vieira falou novamente que era só uma gripezinha. Ela disse que achava que ele tava desidratado, que iria por ele no soro e passar um remédio. Ele passou mal a noite toda, mas ficou no soro só até umas 2 da manhã”.
Na manhã seguinte, o quadro teria piorado. “Não achavam as veias dele, ele chorava muito. Depois da troca de plantão, outra médica viu o prontuário e foi somente aí que colocaram ele no oxigênio. Foi aí que perceberam a gravidade”, afirma. A transferência para o Hospital Materno Infantil de Joinville foi solicitada pela manhã, mas só efetivada à tarde. Na avaliação da família, a transferência para Joinville demorou mais do que deveria. “Esperaram o quadro dele se agravar para transferir”, diz Leila.
José Alfredo foi transferido pelo Serviço Móvel de Urgência (Samu) para o Hospital Materno Infantil de Joinville perto das 13h. Segundo a mãe, ela não foi autorizada a acompanhar o filho na ambulância e precisou seguir em outro veículo disponibilizado pela Secretaria de Saúde.
O Samu chegou uma hora e meia antes de Leila. “Quando cheguei, a atendente me questionou porque eu não fui junto (na ambulância), contei que não me deixaram, ela me disse: ‘Mas eles tinham de ter deixado, você é a mãe’. Ela me levou lá pra dentro, aguardei. Eles estavam fazendo um procedimento no meu filho. Quinze minutos depois saiu um monte de enfermeiros e médicos e me chamaram. O médico me disse que ele tinha acabado de morrer, que tinha chegado já praticamente sem vida. Deu parada cardíaca e não resistiu”, conta emocionada.
PERÍCIA

Raio-X feito no peito de José Alfredo teria apontado bronquiolite com infecção bacteriana / JMais / Divulgação
Um raio-X realizado em Major Vieira no primeiro dia de internamento, segundo a mãe, apontou um quadro de bronquiolite viral. A mãe afirma que o exame revelou, também, uma infecção bacteriana no pulmão da criança. O Município, contudo, afirma que não houve essa conclusão.
“O que mais me marcou foi a demora para a transferência, mesmo com a piora do quadro clínico, e a sensação de descaso diante da falta de melhora dele, apesar de já estar em uso de antibiótico. Como mãe, foi muito difícil ver meu filho piorando enquanto eu sentia que a situação não estava sendo tratada com a urgência que ele precisava. Por isso, junto com todos os prontuários, exames e demais documentos, esse laudo será levado à Justiça para que uma perícia analise toda a sequência dos acontecimentos e esclareça se o atendimento prestado foi adequado e buscar respostas. Quero entender se tudo o que poderia ter sido feito pelo meu filho realmente foi feito”, afirma Leila.
Procurado, desta vez o Município não enviou resposta até o fechamento desta reportagem. Se houver posterior resposta, este texto será atualizado.
DIAGNÓSTICO
A reportagem conversou com médicos especialistas na área para tentar entender a gravidade e a possibilidade de diagnóstico da broncopneumonia. Eles explicaram que quando um quadro respiratório de uma criança evolui mal pode-se suspeitar de uma pneumonia, mas é difícil diagnosticar se é viral ou bacteriana. Há sintomas como tosse mais constante e catarro mais purulento no caso de bacteriana, contudo. Se for viral o prudente é um tratamento de suporte, avaliando a evolução durante o internamento. Se for bacteriana, o recomendável é começar com antibiótico. A decisão, porém, é do médico, com base no diagnóstico quando não tiver disponível um exame preciso para determinar se é viral ou bacteriana. O material teria de ser coletado e levado para um laboratório.
Ainda de acordo com os especialistas, se o quadro evolui de forma grave é preciso avaliar a possibilidade de internação hospitalar. Destacam também que se o hospital não tem suporte adequado, há necessidade de se fazer a transferência a uma unidade melhor equipada.
Fonte: JMais Canoinhas
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