Papo de especialista
“Nem parece que você tem deficiência”: por que essa frase é preconceituosa
Ricardo Inclusivo mostra como expressões comuns do dia a dia reforçam exclusão e preconceitos contra pessoas com deficiência.
Publicado em 26/05/2026 às 08:53
Você já parou para pensar que talvez esteja reproduzindo preconceitos sem perceber, até mesmo em frases consideradas “normais” no dia a dia? Muitas vezes, expressões aparentemente inocentes carregam uma visão limitada sobre as pessoas com deficiência e reforçam barreiras que a sociedade ainda insiste em manter.
Eu, como deficiente visual, já ouvi inúmeras vezes comentários como: “Você nem parece que é cego” ou “Você é tão inteligente, nem parece que tem deficiência”. Pode até parecer elogio para quem fala, mas existe um problema profundo por trás dessas frases. Elas partem da ideia de que a deficiência está ligada automaticamente à incapacidade, à limitação intelectual ou à tristeza.

Quando alguém se surpreende porque uma pessoa com deficiência trabalha, estuda, se comunica bem ou leva uma vida ativa, isso revela muito mais sobre a visão da sociedade do que sobre a deficiência em si. Afinal, por que seria estranho uma pessoa cega ser inteligente? Por que seria inesperado alguém com deficiência ter autonomia, opinião, liderança ou sonhos?
Esse tipo de pensamento faz parte do preconceito estrutural. Ele aparece em piadas, comentários automáticos, expressões populares e até em elogios mal formulados. E é justamente por ser tão comum que muitas pessoas não percebem o quanto essas falas machucam e excluem.

A inclusão verdadeira não começa apenas em rampas, pisos táteis ou leis. Ela também começa na forma como falamos e enxergamos o outro. O vocabulário importa porque as palavras carregam ideias, e ideias moldam comportamentos.
Quando deixamos de associar a deficiência à inferioridade, começamos a construir relações mais humanas, respeitosas e inclusivas. Pessoas com deficiência não precisam ser tratadas como coitadas, nem como exemplos de superação o tempo todo. Precisam apenas ser reconhecidas como pessoas completas, com capacidades, dificuldades, responsabilidades e histórias como qualquer outra.
Eu acredito que a informação transforma. Quanto mais conversamos sobre inclusão, mais conseguimos quebrar preconceitos que durante muitos anos foram tratados como algo normal.
Que a gente possa construir, juntos, uma União da Vitória mais consciente, mais empática e verdadeiramente inclusiva.
Ricardo Angelino dos Santos, conhecido como Ricardo Inclusivo, é deficiente visual, vice-presidente da Igreja Batista Nova Vida e integrante da Adevivi (Associação dos Deficientes Visuais do Vale do Iguaçu). Morador de União da Vitória há 27 anos, atua na promoção da inclusão, acessibilidade e conscientização social por meio da informação e do diálogo.
Fonte: Assessoria
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