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Papo de especialista

A MP não substituiu o Direito ao Alongamento, ela apenas criou mais uma opção

Nem toda reestruturação de dívida rural precisa seguir exclusivamente as regras da Medida Provisória.

Publicado em 27/07/2026 às 15:04

(Foto: Assessoria)

Na semana passada falamos sobre quem pode se enquadrar na Medida Provisória, como protocolar o pedido e a importância do laudo agronômico.

Mas existe um ponto que merece muita atenção.

Muitos produtores passaram a acreditar que a MP se tornou a única regra para renegociar dívidas rurais.

Não é assim.

Ao longo dos últimos anos, as normas do crédito rural sofreram alterações na forma de analisar os pedidos de prorrogação. Os requisitos se tornaram mais técnicos, a documentação passou a ser mais importante e os bancos adotaram interpretações cada vez mais rigorosas.

Isso, porém, não significa que o direito ao alongamento tenha desaparecido.

A Constituição Federal, a legislação do crédito rural, o Manual de Crédito Rural e a jurisprudência continuam compondo o sistema jurídico que protege a atividade rural em situações excepcionais. A própria Súmula 298 do Superior Tribunal de Justiça permanece reconhecendo que o alongamento, quando preenchidos os requisitos legais, não constitui mera faculdade da instituição financeira.

É justamente por isso que, daqui para frente, o verdadeiro diferencial não estará apenas na existência da Medida Provisória, mas na qualidade da prova produzida em cada caso.

O laudo elaborado pelo engenheiro agrônomo passa a ser a principal ferramenta para demonstrar tecnicamente a frustração da safra, seus reflexos sobre a capacidade de pagamento e a necessidade da reestruturação da dívida.

A ele se soma a fundamentação técnico-jurídica do pedido, que deve enquadrar corretamente o caso concreto dentro da legislação, do Manual de Crédito Rural e da jurisprudência aplicável.

Em outras palavras: cada caso será decidido muito mais pela qualidade da sua demonstração do que pela simples existência da MP.

E aqui está o ponto mais importante:

A Medida Provisória não substituiu esse sistema.

Ela criou uma nova modalidade de reestruturação, com regras próprias, prazos específicos e condições determinadas para determinadas operações.

Mas isso não significa que todas as hipóteses de alongamento passem, obrigatoriamente, a obedecer aos limites previstos na MP.

Quando o caso concreto demonstrar que os instrumentos jurídicos já existentes autorizam uma solução diferente, inclusive com prazos superiores aos previstos na Medida Provisória, se essa for a medida necessária e juridicamente adequada para preservar a atividade rural, essa discussão continua possível, porque decorre do próprio regime jurídico do crédito rural e do controle exercido pelo Poder Judiciário.

Em outras palavras, a MP não revogou o que já existia.

Ela apenas acrescentou uma nova alternativa ao produtor rural.

Desde a publicação da Medida Provisória nº 1.376/2026 (15/07/2026), foi editada também a Resolução CMN nº 5.330/2026 (24/07/2026), responsável por regulamentar sua aplicação.

Essa regulamentação estabelece os critérios e procedimentos para que as instituições financeiras possam operacionalizar as novas linhas de crédito previstas na Medida Provisória. Trata-se de um importante avanço na sua aplicação prática.

Entretanto, a publicação da Resolução não altera a conclusão deste artigo. Ela regulamenta a nova modalidade criada pela MP, mas não revoga a legislação do crédito rural, não modifica o Manual de Crédito Rural e tampouco elimina os demais instrumentos jurídicos que continuam à disposição do produtor rural quando o caso concreto justificar uma solução diferente.

Ao contrário, a regulamentação confirma que a Medida Provisória possui regras próprias e convive com o sistema jurídico do crédito rural já existente. Ou seja, a nova modalidade passa a integrar esse sistema, sem substituir os direitos que a legislação e a jurisprudência já asseguravam aos produtores rurais.

Por isso, o maior erro que alguém pode cometer hoje é imaginar que existe apenas um único caminho.

Em muitos casos, a Medida Provisória será a melhor solução.

Em outros, o ordenamento jurídico poderá oferecer instrumentos mais adequados à realidade daquela propriedade e daquela atividade rural.

A Medida Provisória é uma porta nova. Mas ela não fechou todas as outras portas que o Direito já oferecia ao produtor rural.


Dr. Gilson Orth

Advogado Especialista em Direito Bancário do Agronegócio


Fonte: Assessoria

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