Papo de Especialista
As novas Tarifas dos EUA podem afetar muito mais do que as exportações
As medidas anunciadas pelos Estados Unidos aumentam a preocupação de diversos setores da economia brasileira
Publicado em 05/08/2026 às 09:31
Nas últimas semanas, o agronegócio e a indústria brasileira voltaram suas atenções para a decisão do governo dos Estados Unidos de impor novas tarifas sobre diversos produtos brasileiros. Na prática, essas tarifas aumentam o custo de entrada desses produtos no mercado norte-americano, reduzindo sua competitividade e podendo dificultar as exportações. Entre os setores mais expostos estão a indústria da madeira, móveis, máquinas e equipamentos, segmentos que possuem forte presença nas exportações catarinenses.
Para quem vive em Porto União, União da Vitória e em todo o Planalto Norte, esse assunto merece atenção especial. Nossa região possui uma das principais cadeias florestais e madeireiras do Sul do Brasil, responsável por milhares de empregos diretos e indiretos. Levantamentos baseados em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e em análises da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC) apontam que municípios como Porto União, Canoinhas, Três Barras e Campo Alegre, além de polos como São Bento do Sul e Caçador, estão entre os mais expostos aos efeitos das novas tarifas, justamente pela forte dependência da cadeia da madeira, móveis e produtos florestais destinados ao mercado norte-americano.
À primeira vista, muitas pessoas podem imaginar que esse seja um problema exclusivo das empresas que exportam. Entretanto, a economia funciona como uma grande corrente. Quando uma indústria vende menos, toda a cadeia produtiva acaba sentindo os reflexos. O transportador realiza menos fretes, fornecedores recebem menos pedidos, empresas prestadoras de serviços reduzem sua atividade, o comércio perde movimentação e os investimentos passam a ser feitos com mais cautela. Em pouco tempo, um problema que parecia restrito ao comércio exterior passa a influenciar diretamente a economia regional.
É justamente nesse cenário que empresários e produtores rurais começam a enfrentar uma preocupação comum. As contas continuam chegando, os financiamentos mantêm seus vencimentos e qualquer redução na receita ou atraso nas vendas pode comprometer o fluxo financeiro da empresa ou da propriedade rural. Diante dessa realidade, a reação mais comum costuma ser procurar um novo empréstimo ou contratar um novo financiamento na tentativa de recuperar o fôlego financeiro.
Essa pode ser uma solução em algumas situações, mas nem sempre é a mais adequada.
Muitas vezes, antes de assumir uma nova dívida, vale a pena analisar cuidadosamente os financiamentos que já existem. Dependendo da realidade de cada empresa ou propriedade rural, uma reestruturação das dívidas bancárias pode representar uma alternativa mais eficiente do que simplesmente aumentar o endividamento. Em vez de contratar mais crédito, pode ser mais estratégico reorganizar os financiamentos já existentes, ajustando-os à capacidade financeira atual da empresa ou da propriedade e recuperando o equilíbrio necessário para enfrentar momentos de maior instabilidade.
É importante lembrar que não existe uma solução única. Cada empresa possui uma realidade diferente, assim como cada produtor enfrenta desafios específicos. O caminho mais seguro sempre dependerá de uma análise técnica da situação financeira e dos contratos existentes.
As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos demonstram como decisões tomadas fora do Brasil podem produzir reflexos rápidos dentro das empresas e das propriedades rurais da nossa região. O empresário não controla a política comercial norte-americana. O produtor rural também não controla o clima, o preço das commodities ou as oscilações do mercado internacional. Mas ambos podem controlar a forma como administram suas finanças e se preparam para enfrentar momentos de maior incerteza. A advocacia na área bancária tem explorado inovações legislativas e caminhos extrajudiciais ou judiciais que são capazes de mudar sensivelmente a perspectiva de enfrentamento da crise.
Em períodos como este, preservar a saúde financeira do negócio pode ser tão importante quanto produzir bem ou conquistar novos mercados. Afinal, atravessar uma fase de dificuldades com planejamento e estratégia costuma ser muito mais eficiente do que buscar soluções apenas quando o problema já comprometeu o caixa da empresa ou da propriedade rural.
Dr. Gilson Orth
Advogado Especialista em Direito Bancário do Agronegócio
Fonte: Assessoria
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