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Papo de Especialista

Outubro Rosa: o impacto invisível do câncer de mama na saúde emocional das mulheres

Estudos revelam índices expressivos de ansiedade e sofrimento psicológico, reforçando a importância do acolhimento emocional durante o tratamento.

Publicado em 09/10/2026 às 19:06
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Marina Kreling, psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, destaca a importância da saúde emocional durante o enfrentamento do câncer de mama. (Foto: Arquivo pessoal/divulgação )

Quando uma mulher recebe o diagnóstico de câncer de mama, não é apenas sua saúde física que passa por transformações. A maneira como ela percebe o futuro, se relaciona com o próprio corpo e compreende que sua identidade também pode ser profundamente afetada. 

O Outubro Rosa, tradicionalmente associado à conscientização e à detecção precoce da doença, também representa uma oportunidade para discutir uma dimensão frequentemente menos visível: a saúde mental das mulheres que enfrentam o câncer de mama. 

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar aproximadamente 78.610 novos casos de câncer de mama por ano entre 2026 e 2028. A doença representa cerca de 30% dos novos diagnósticos de câncer entre mulheres, desconsiderando os tumores de pele não melanoma. 

Mas, além dos números relacionados à incidência, o que a ciência revela sobre as consequências emocionais desse diagnóstico? 

O sofrimento psicológico também aparece nas pesquisas 

Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2026 na revista Actas Españolas de Psiquiatría analisou 32 estudos, envolvendo 21.507 pacientes com câncer de mama. Os pesquisadores identificaram uma prevalência estimada de 35% de ansiedade e 26% de depressão. 

Esse resultado não significa que todas as mulheres desenvolvem transtornos mentais ao decorrer da doença, nem representam necessariamente a realidade brasileira. Mais mostra que o sofrimento emocional é uma dimensão relevante da experiência oncológica e precisa ser reconhecido. 

O diagnóstico pode despertar medo da morte, preocupação com a família, insegurança financeira, dúvidas sobre o tratamento e uma sensação de perda de controle sobre a própria vida. 

Diante de um diagnóstico de câncer, pensamentos relacionados à incerteza e à antecipação de cenários negativos podem intensificar a ansiedade, o desafio não é simplesmente deixar de pensar sobre a doença, mas desenvolver recursos emocionais para lidar com aquilo que ainda não possui respostas. 

Quando a doença modifica a relação com o próprio corpo 

A autoestima é outra dimensão que merece atenção. 

Uma revisão científica publicada em 2024 na revista Psycho-Oncology, conduzida por pesquisadores vinculados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, analisou 51 artigos sobre imagem corporal e qualidade de vida de mulheres submetidas a cirurgias para câncer de mama. 

A maioria dos estudos identificou impactos negativos na percepção da imagem corporal e na qualidade de vida após o tratamento cirúrgico. A revisão também encontrou maior insatisfação corporal entre mulheres submetidas à mastectomia, em comparação àquelas que passaram por cirurgias conservadoras. 

Para algumas mulheres, olhar no espelho pode significar entrar em contato com transformações que não foram escolhidas. A queda de cabelo, as cicatrizes e as alterações nas mamas podem despertar sentimentos relacionados à feminilidade, à sexualidade, à identidade e à autoconfiança. 

É importante compreender que a autoestima não depende exclusivamente da aparência. Entretanto, isso não significa que as mudanças corporais devam ser minimizadas. 

Reconstruir a relação com o próprio corpo pode exigir tempo, acolhimento e a possibilidade de reconhecer perdas sem que elas definam toda a identidade da mulher. 


A obrigação de ser forte também pode gerar sofrimento 

Existe ainda uma questão pouco discutida: a pressão para demonstrar força e positividade durante todo o enfrentamento da doença. 

Frases como "você precisa ser forte", "não pense negativo" ou "tenha fé que tudo ficará bem" geralmente surgem como tentativas de oferecer apoio. Entretanto, dependendo de como são recebidas, podem dificultar a expressão de emoções consideradas negativas. 

Uma mulher pode sentir gratidão pelo tratamento e, ao mesmo tempo, medo. Pode ter esperança e também experimentar tristeza, irritação ou insegurança. 

O sofrimento emocional não representa falta de coragem, assim como manter pensamentos positivos não é uma condição para a recuperação física. 

Acolher significa reconhecer que nem sempre será possível enfrentar o processo com otimismo e que a paciente não precisa esconder suas dificuldades para tranquilizar as pessoas ao redor. 

 A psicoterapia como parte do cuidado integral 

Na prática clínica, o acompanhamento psicológico pode auxiliar na identificação de pensamentos que intensificam o sofrimento, no desenvolvimento de estratégias de regulação emocional, na adaptação às mudanças corporais e na construção de formas mais saudáveis de lidar com a incerteza nesse processo. 

Também é fundamental considerar a rede de apoio, o estudo publicado na BMJ Open identificou uma associação entre maior suporte social e menor sofrimento psicológico. 

Isso reforça que o cuidado não depende apenas da paciente, a qualidade das relações, a disponibilidade para escutar e o respeito às necessidades individuais também são importantes. 

Nem sempre apoiar significa oferecer conselhos ou tentar encontrar uma solução. Em muitos momentos, a presença e a escuta sem julgamentos podem ser mais significativas do que qualquer tentativa de incentivar a positividade. 

Para além do laço rosa: enxergar a mulher por inteiro 

Os avanços no diagnóstico e no tratamento do câncer de mama são fundamentais. Entretanto, a assistência à saúde precisa reconhecer que o adoecimento também envolve aspectos psicológicos, sociais e relacionais. 

Cada mulher possui uma história, uma rede de apoio, expectativas e maneiras diferentes de enfrentar situações difíceis. Por isso, não existe uma resposta emocional única ou uma forma correta de vivenciar o diagnóstico. 

O Outubro Rosa precisa continuar incentivando a conscientização e o acesso aos cuidados médicos, mas também deve abrir espaço para conversas sobre medo, ansiedade, autoestima e sofrimento psicológico. 

Porque nem toda dor aparece em um exame, nem toda mudança é visível no espelho e nem toda mulher que demonstra força está emocionalmente bem. 

Cuidar da saúde de uma mulher também significa reconhecer suas emoções, respeitar sua individualidade e compreender que existe uma pessoa muito além do diagnóstico. 


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Fonte: Assessoria

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