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Papo de Especialista

Quanto custa esperar mais um ano?

Na dívida rural, o custo da solução precisa ser comparado com o custo de permanecer no problema

Publicado em 01/09/2026 às 10:11

(Foto: Assessoria )

Quando o produtor percebe que sua situação financeira começou a sair do controle, três pensamentos aparecem com muita frequência: 

- Vai ficar caro procurar ajuda.

- Agora não é a hora.

- Talvez ano que vem melhore.

 Todos parecem razoáveis à primeira vista. Mas, em matéria de dívida bancária rural, eles podem formar uma combinação perigosa.

Antes de perguntar quanto custa agir, pergunte quanto custa não fazer nada. Advogado, perícia, laudo técnico, análise contratual: tudo isso naturalmente envolve algum investimento. Mas o valor desse investimento não pode ser analisado isoladamente. Uma dívida que não é administrada continua produzindo juros, encargos e consequências patrimoniais. E esse crescimento muitas vezes não acontece de maneira linear. O problema vai se acumulando. Uma dificuldade de uma safra é levada para a seguinte. Depois surge uma nova renegociação. Depois outra operação para resolver a anterior. E, quando o produtor percebe, uma dívida que originalmente era suportável passou a comprometer uma parte significativa ou até a totalidade do patrimônio. Por isso, às vezes, caro não é buscar uma solução. Caro é permanecer durante anos dentro de um problema que continua crescendo.

Buscar orientação não significa começar uma ação judicial. Existe ainda uma ideia muito comum de que procurar um advogado significa imediatamente entrar com processo, assumir custas elevadas e iniciar uma longa discussão judicial. Não necessariamente. Muitas situações começam com algo muito mais simples: compreender o problema. Uma consulta pode identificar se existe necessidade de alongamento, renegociação, revisão contratual, perícia ou simplesmente uma mudança na forma de conduzir a relação com o banco. Em outros casos, uma notificação ou um requerimento bem fundamentado pode ser suficiente para iniciar uma negociação. O processo judicial é uma ferramenta. Não é obrigatoriamente o primeiro passo.

“Agora não é hora.” Mas quando será? O melhor momento para começar a resolver um problema financeiro é quando ele é identificado. Isso não significa que todas as providências precisam ser tomadas no mesmo dia. Resolver um problema é um processo. Primeiro compreendemos a situação. Depois levantamos contratos e documentos. Em seguida avaliamos as alternativas. Somente então escolhemos a estratégia adequada. O erro está em não começar. Se a propriedade já está deixando de evoluir, se o produtor precisa retirar patrimônio para sustentar a atividade ou se uma dívida começa a consumir a renda das próximas safras, o problema já existe. E, quando o problema existe, já existe motivo para analisá-lo.

Esperança é importante. Mas não pode ser o plano financeiro da propriedade. “Talvez ano que vem melhore.” Pode melhorar. A próxima safra pode ser excelente. O clima pode colaborar. Os preços podem subir. A produtividade pode aumentar. E todos devemos torcer para que isso aconteça. Mas uma safra boa no futuro não apaga automaticamente os prejuízos acumulados no passado. Se o produtor teve uma safra ruim e, para pagar as contas, diminui o investimento em sementes, correção do solo, adubação, máquinas ou tecnologia, ele pode estar justamente reduzindo as condições para que o próximo ano seja melhor. É por isso que o problema anterior precisa ser administrado agora. Dependendo do caso, a legislação do crédito rural oferece instrumentos para adequar as obrigações à realidade da atividade, evitando que todo o prejuízo de um evento climático ou econômico recaia exclusivamente sobre o patrimônio do produtor. O importante é não transformar esperança em passividade.

Problemas pequenos são mais fáceis de administrar do que problemas acumulados. Uma das situações que mais encontramos hoje é a de produtores que passaram três, quatro ou cinco anos resolvendo uma dívida com outra dívida. No começo, havia um problema. Depois vieram sucessivas renegociações. Ao final, existe uma estrutura financeira muito maior e mais difícil de reorganizar. Se o problema tivesse sido identificado e tecnicamente enfrentado no primeiro ou no segundo ano, muitas vezes o prejuízo poderia ter sido distribuído dentro da própria capacidade produtiva da propriedade. Por isso, planejamento financeiro rural também significa impedir que os problemas de uma safra sejam carregados indefinidamente para as próximas.

Existem despesas que saem da conta. E existem prejuízos que saem do patrimônio. Investir em informação, análise técnica, laudos ou orientação jurídica é uma despesa visível. O prejuízo de não agir, muitas vezes, não aparece imediatamente. Ele surge devagar: nos juros, na redução do investimento, na venda de uma máquina, na perda de uma área ou na necessidade de assumir uma nova dívida. E, quando aparece por inteiro, normalmente já ficou muito maior.

Esperança é importante. Mas estratégia é indispensável. Quem administra uma propriedade rural administra uma empresa. E empresa saudável não espera que seus problemas desapareçam. Ela identifica, planeja e age antes que o problema se transforme em crise.


Dr. Gilson Orth

Advogado Especialista em Direito Bancário do Agronegócio.


Fonte: Assessoria

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