Papo de especialista
Você pode estar sendo capacitista sem perceber ao falar com uma pessoa cega
Ricardo Inclusivo explica como atitudes vistas como gentis podem reforçar preconceitos e limitar a autonomia de pessoas cegas.
Publicado em 23/06/2026 às 15:36
O capacitismo contra pessoas cegas muitas vezes não aparece de forma explícita, mas em gestos cotidianos que passam por educação ou gentileza. Eu percebo isso quando um adulto é tratado com voz infantilizada, quando perguntas são direcionadas ao acompanhante em vez de serem feitas diretamente a mim ou quando minha autonomia é recebida com espanto.
Entre os comportamentos mais frequentes está a infantilização da fala, como se a deficiência exigisse uma forma diferente de tratamento. Outra prática comum é ignorar a pessoa cega e perguntar ao acompanhante: "Ele quer sentar?", "Ele precisa de ajuda?" ou "Ele está bem?". Eu estou ali, escuto, entendo e posso responder por mim mesmo.
Também é comum o espanto diante de atividades cotidianas. Comentários como "Nossa, você mexe no celular super bem" revelam uma expectativa equivocada de incapacidade. Isso não é um milagre. É autonomia. É apenas parte da minha rotina, assim como acontece com qualquer outra pessoa.
Quando tarefas do dia a dia são tratadas como atos extraordinários, acabamos reforçando a ideia de que pessoas cegas são menos capazes. Mesmo quando a intenção é boa, esse tipo de atitude contribui para estereótipos que limitam nossa participação e independência.
A orientação mais simples continua sendo a mais importante: fale diretamente com a pessoa cega, use um tom de voz normal e, se quiser ajudar, pergunte antes. Menos infantilização, menos suposições e mais respeito.
Ricardo Angelino dos Santos, conhecido como Ricardo Inclusivo, é deficiente visual, vice-presidente da Igreja Batista Nova Vida e integrante da Adevivi (Associação dos Deficientes Visuais do Vale do Iguaçu). Morador de União da Vitória há 27 anos, atua na promoção da inclusão, acessibilidade e conscientização social por meio da informação e do diálogo.
Fonte: Assessoria
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